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O todo que há em mim

O todo que há em mim

Em criança dizia...

Setembro 30, 2019

... a quem me quisesse ouvir : "quando for grande vou ter quatro filhos!"

A ternura e complacência com palavras tão destemidas só eram interrompidas com as chamadas de atenção da minha mãe - que a vida era difícil, que eu não sabia se teria condições para sustentar tanta filharada, que quando tivesse o primeiro logo mudava de opinião. Os sonhos das crianças não eram particularmente acarinhados na época (será que agora o são?) e o pragmatismo acabava por levar a melhor.

Até certo ponto da minha vida pensei que a minha mãe tinha razão, que a vida não é fácil e que depois do primeiro filho somos engolidos por quase tudo... e sobra pouco. Para mim não sobrou quase nada, ao ponto de pensar em cortar pela raiz a vinda de uma segunda criança nas duas ou três ameaças que tive. Felizmente não passaram de sustos. Mas a vida tem sempre uma forma de nos pôr carinhosamente na linha, que é como quem diz de nos mostrar aquilo para que viemos e aquilo que realmente nos preenche. E chega a ser assombrosa a forma como ela se revela, como nós nos revelamos a nós mesmos, assim estejamos disponíveis para nos despir de todas as crenças que nos incutiram, voltando à essência. E aí pouca coisa importa. O próprio tempo é relativo. 

Tenho 42 anos e vou voltar a ser mãe. Dizia isto a uma amiga num jantar de fim-de-semana. Ela olhou para mim e perguntou-me como tinha eu tanta certeza. Disse que o sentia, que o desejava muito, não num desejo desenfreado de não ver mais nada, de contar os dias, semanas ou meses enquanto não se concretizava, mas naquele desejo calmo de quem sabe que o momento chegará. E que a criança que nascer será a criança com que eu sempre sonhei. Mesmo quando deixei de a sonhar. A melhor irmã para o meu filho. Uma bênção para uma família de gente que se ama, respeita e cresce junta.

Percebo agora que o meu sonho de criança era o meu ideal de vida, a minha trave mestra, que descuidadamente deixei de perseguir. Acreditei nos adultos e esse foi o meu principal erro. Mas ainda estou a tempo, sei que sim. Não deixa de ser curioso que seja um pensamento infantil de criança a trazer de novo o verdadeiro significado de uma vida. Que sabedoria e alcance existem em meia dúzia de anos de existência! Será que regredimos na consciência à medida que o tempo passa? (Agora sei que sim.)

Tenho 42 anos e vou voltar a ser mãe. Desconfio que a biologia já não me deixe chegar à conta redonda dos 4, mas esse detalhe nem é relevante. Importa a luz que vislumbro à minha frente, o meu homem de sorriso aberto e nos seus braços o que de melhor somos e fizemos. Importa o orgulho alegre do meu filho, a certeza de que a sua família é aquilo que ele sempre pediu e sonhou.

 

Tenho 42 anos e vou voltar a ser feliz.

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