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O todo que há em mim

O todo que há em mim

Galileu, o negacionista

Novembro 21, 2020

Os tempos que se vivem são perigosos. Nunca pensei presenciar algo assim, não propriamente pelo vírus em si e pelo pandemónio gerado na sociedade, mas essencialmente pelo comportamento humano. Assusta-me esta caça às bruxas, a acusação barata e a censura declarada a quem pensa diferente.
Como se a ciência tivesse evoluído até agora com consensos. Como se a medicina tivesse evoluído até agora com todos os médicos a pensarem da mesma forma.
Como se a dúvida e a discussão não fizessem parte do método científico.
No Instagram, uma das minhas fadistas favoritas, bloqueou um seguidor porque ele teve a ousadia de referir que em Espanha há meses que as máscaras têm uso generalizado e obrigatório e não tiveram qualquer efeito na evolução dos números! O Rui Unas censura a opinião de um médico no seu canal, porque ele não tem a mesma opinião de outros médicos (apesar de não estar sozinho na classe médica naquela perspetiva).
O que é isto?
Isto não é responsabilidade pública! Isto não é "eu não quero contribuir para a desinformação". Isto é censura. Isto é não aceitar que haja pessoas que tenham uma perspetiva diferente de tudo isto.
O que é ser negacionista? Estou cansada desta expressão! É que eu ainda não ouvi ou li ninguém dizer que a covid não existe (e se há quem o defenda está no mesmo pote dos que duvidam da chegada do homem à lua ou daqueles que defendem que o Ventura é um excelente cidadão). E também não ouvi ninguém dizer que não será potencialmente letal para muitos idosos ou para pessoas com doenças de risco. Mas não quer dizer que o seja. Não é uma sentença de morte. Da mesma forma que dizer que as medidas tomadas são desproporcionais, tendo em conta aquilo que já se sabe do vírus, também não torna estes indivíduos irresponsáveis. Ou más pessoas. Ou alvos a abater.
Tenho a certeza que a história vai julgar esta época. E aí se saberá quem tinha razão. Desconfio que aqueles que hoje se armam em excelentes samaritanos, como se fossem o único exemplo a seguir, criticando quem pensa diferente, quem age diferente, nessa altura, se ainda por cá andarem, vão encolher os ombros e desculpar os seus excessos com a comunicação social, ou com o desconhecimento, mas não passarão de desculpas baratas de quem desistiu (ou nunca soube) pensar pela própria cabeça.
A discriminação existe atualmente. As pessoas desconfiam umas das outras, criticam, afastam-se, discutem, isolam-se das outras com base no medo.
Os doentes não covid são em número muito superior, assim como as mortes não covid. E só o egoísmo puro de quem não está a passar por uma infelicidade de ter uma doença ou de ter um familiar ou amigo com uma doença que necessita de apoio médico (e não tem) é que pode fechar os olhos a isto.
As pessoas estão a perder os seus trabalhos e a suas fontes de rendimento. Há fome. Há situações clínicas que começam a surgir dessa fome, dessa falta de recursos para comprar medicamentos para doenças crónicas.
A doença mental cresce, as depressões, e também se morre do espírito e da mente.
Contabilizar o número de novos casos e de mortes diárias não é jornalismo. Nem é informação. Nem resolve nada. Qual o propósito de contabilizar estes números? Porque não contabilizam também os números da gripe, do cancro ou do AVC? Desconfio que batiam aos pontos, diariamente, os mortos por covid. Porque é que as pessoas se fixaram nisto? Nesta contabilidade mórbida que lhes alimenta o medo, tolda a razão e os faz acreditar que estão perante um inimigo único e gigantesco. Porque não dão destaque aos recuperados? À esmagadora maioria que deu positivo sem ter um único sintoma! Eu já tive algumas viroses na vida, daquelas de ir à cama e perder peso, logo, viroses que passaram por mim e não me permitiram ficar assintomática. A Covid, na maioria dos casos, ao que parece, até permite. Porque não se fala disto?
Claro que cada um tem a sua forma de lidar com esta situação e deve ter liberdade para o fazer. Mas torna-se um fenómeno perigoso quando vemos decisores e influenciadores, sejam políticos, diretores de agrupamentos escolares, médicos ou figuras públicas, a enveredar por um caminho de pensamento único e de imposição do mesmo. É assustador. E eu já nasci na liberdade, mas isto é mesmo assustador.
Não há pensamentos únicos. Se em março ou abril o país confinou porque ninguém sabia com o que se estava a lidar, e que vírus era este, então agora já há uma única teoria ou resposta? Claro que não. Da mesma forma que a vacina não é a resposta que todos esperam. Porque mesmo vacinadas as pessoas vão continuar a morrer; mesmo com tratamentos protocolados vão continuar a morrer; porque é o que acontece com a gripe, com as pneumonias e outras patologias do género. O que mudará nesse altura? Desconfio que se vai deixar de ouvir falar nas mortes por covid. Vacinados ou não, os interesses jornalísticos e públicos serão outros. Só que entretanto foi pago um imenso preço...
 

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Pensar é sempre perigoso...

Outubro 16, 2020

… mesmo que digam o contrário.

Vivemos na sociedade da informação, da comunicação, das redes sociais, das App, mas continua a ser complexo não pertencer ao rebanho, ao pensamento único. Tudo o que os meios de comunicação social vendem, as pessoas compram. Não há filtro, não há raciocínio, nem sequer há lógica que possa atribuir diversas gradações ao que se leu ou ouviu, para assim se ter algum pensamento crítico e consequente decisão. Os jornalistas (não todos, mas a maioria) são arautos da desgraça, e fazem questão da desgraça ser bastante enfatizada, para que a abertura do seu noticiário tenha impacto, para que as audiências subam, para que o seu canal ganhe mais dinheiro. Tudo tem um valor associado. Tudo é movido por interesses. 

Sair à rua nos dias que correm merece uma reflexão, já que existe a possibilidade de ver o ser humano a reagir numa situação não normalizada. E não sendo uma situação limite, não deixa de ser penosa (?) a incapacidade em simplesmente responder. (Há uma diferença abismal entre reagir e responder.) Porque já não estamos a falar de algo novo, surpreendente, aparentemente perigoso que apanhou todos de surpresa. Estamos a falar de algo que se arrasta há meses, que todos tiveram oportunidade de provar in loco da sua perigosidade (ou não), que todos tivemos hipótese de procurar informação de forma assertiva, mas ficámo-nos pela reação pura e dura. Se na TV dizem que o dia correu bem, vai-se à esplanada comer um gelado. Se o pivot do noticiário diz que correu mal, começo a maldizer o vizinho. Se nos dizem então que "não há memória de um dia tão negro", rendemo-nos, e fazemos exatamente tudo aquilo que a TV debitar, que os políticos mandarem, sem questionar. Alguém nos habituou a não pensar e nós correspondemos na íntegra. É até desconfortável quando o fazemos, porque assusta. 

Deve ter sido numa base semelhante a esta que o Nazismo cresceu na Alemanha e se chegou ao Holocausto, perante a passividade da esmagadora maioria da população. Nessa altura, como agora, pensar podia trazer problemas, e as pessoas deixaram-se ficar. Até porque também nessa altura existiam muitos perigos à solta, inimigos, que exigiam ação musculada. Tivemos, depois, o resultado...

 

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Era tão bom que...

Setembro 14, 2020

... a perceção do mundo não se resumisse às redes sociais. Que a nossa indignação não estivesse dependente do que ouvimos na TV. Que o nosso medo não aumentasse ou diminuísse consoante o semblante ou tom de voz de quem tem espaço público. Nos dias que correm é um ato de masoquismo estar mais do que 10 minutos seguidos a vislumbrar o Facebook, ou a acompanhar uma maratona jornalística em horário nobre. É tudo mau o que existe no nosso mundo, segundo eles, e caminha para piorar ainda mais. Esta é a mensagem. Mesmo que ainda não existam elementos para dizer o que quer que seja, é quase uma obrigação piorar. Tem de piorar. Vai piorar. Tenham medo, muito medo. Preparem-se para o juízo final e para cada um fugir para seu lado. Mas tenham atenção à fuga, porque esta pode piorar ainda mais o que quer que seja que nessa altura já esteja mau! E aí tudo o que é grave pode acontecer! A dobrar. Ou a triplicar. E o calamitoso disto é que quase toda a gente acredita. E por toda a gente acreditar, já se adivinha, é óbvio que vai descambar! É uma lei universal. 

Como mãe, que sempre adorou o outono e o reinício das aulas, tento falar com o meu filho sobre a situação atual. Consumimos informação na conta certa para saber o que se passa em nosso redor. Ainda assim tenho o gosto de o estar a motivar para a escola, para o reencontro com os colegas, de como é bom voltar a esta rotina. O uso da máscara, o frasquinho com desinfetante são adereços que já têm lugar na mochila nova, que já treinámos como arrumar, como garantir que não se perdem, mas tudo o resto são coisas boas aquelas que queremos imaginar. Nem que seja a normalidade de passado um mês ele já se queixar que está farto das aulas e que precisa de férias! Mas é esta normalidade que temos de cultivar, não a normalidade de nos comportarmos como seres receosos, robóticos, a medir distâncias, a cultivar estigmas e a promover ainda mais a discriminação. 

Como cidadã, gostava de ouvir falar mais vezes nessa coisa absolutamente fabulosa que é o nosso sistema imunitário e de como ele nos mantém vivos, ativos e quase sempre saudáveis. Fala-se tanto no vírus, mas não se fala da principal barreira invisível que o neutraliza em mais de 95% dos casos. Porque não aberturas de telejornais a falar dos alimentos que o fortalecem, daqueles que o debilitam, de como o sono, a tranquilidade, o riso ou a brincadeira o reforçam. É tão estranho que se promova o medo e a ansiedade no combate a um virús que, estudos provam, enfraquece de cada vez que uma pessoa se mostra tranquila, equilibrada e sem stress.

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Estava escrito...

Agosto 12, 2020

Estava escrito que seria breve, que seria luxúria, que seria impecavelmente pecaminoso, como só as almas mais rebeldes ousam. Talvez por isso a cinza de um fogo alto ainda resista, lutando entre a última forma dos nossos corpos unidos, e o pó envergonhado que acaba sempre por voltar à terra.

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Vou mesmo abrir o coração...

Março 12, 2020

... é-me indiferente que tudo isto soe irresponsável, ignorante ou leviano. Sei que não o sou. Nunca fui uma pessoa irresponsável ou desinformada. Considero-me até com um nível de cidadania acima da média. Mas esta paranoia com o Corona Vírus e a sua nova estirpe - Covid 19 começa a soar mesmo isso. O poder da globalização e da comunicação mundial têm virtudes, mas também muitos pés de barro, e se para determinadas situações é uma bênção o estarmos todos ligados, noutros casos acaba por ser uma exaltação do mal, da doença, do perigo, da morte, levados a píncaros de medo e pânico generalizados. E aí sim o mal instala-se com toda a sua força, o caos também. Depois dirão - "Tínhamos razão! Bem avisámos de que esta situação ia ser caótica, que era gravíssima, que tinham de ter medo (muito medo) e cuidado triplicado...." -, quando aquilo que deviam assumir era uma postura errónea de estímulo doentio que agravou a situação, que a tornou incontrolável, aumentando assim o seu grau de impacto. 

Eu não sou especialista em nada. Nem na minha vida! Sou uma aprendiz constante de tudo. E sinto-me grata por todos os dias beber mais um pouco, crescer mais um pouco, ser e sentir mais um pouco. Por isso não faço questão de ir contra a maré ou de prejudicar ninguém. Há 3 ou 4 dias que comecei a reduzir a minha vida social, que bebo um café ao balcão, não me aproximo muito de ninguém... Vou também deixar de ir ao ginásio e a bares. A minha avó de 92 anos é a minha preocupação, pelo que também não a vou visitar nas próximas semanas. Profissionalmente respeito as normas de segurança e explico às pessoas porque não lhes correspondo à mão estendida, à tentativa de beijinho na cara. E elas percebem. Mas faço isto de forma descontraída, como fiz com a Gripe A em que o meu filho foi diagnosticado (na altura bebé de colo) e tivemos de sair do Hospital por uma porta traseira para não contaminarmos ninguém. Durante o tempo que permanecemos no Hospital falaram comigo à distância, com máscaras na cara, em algumas situações só sabia se era homem ou mulher depois da primeira frase! Para quê? Para estar com ele em casa meia dúzia de dias a ver o Pocoyo e a administrar Ben-u-ron e Brufen! Ponto final parágrafo. Mais nada aconteceu. Se eu entrasse em histeria naquele momento, em que o meu mais que tudo é diagnosticado com uma cena, também naquela altura, tal como com o Covid 19, potencialmente mortal, tinha-me atirado para o chão aos gritos. 

A perigosidade do Covid-19 existe para grupos de risco. Ok. Vamos ter atenção triplicada com esses grupos de risco, vamos fazer o nosso papel de cidadãos. E talvez seja este o grande défice - não a falta de resposta da medicina ao Covid 19, mas a falta de inteligência humana em lidar com uma situação nova. Coloquem então as CMTV desta vida a emitir notícias de manhã à noite, pareceres de gente "importante" que ninguém sabe quem é, e é ver o papel higiénico a desaparecer nas prateleiras! Faz sentido? Não. É exatamente este o meu ponto.

 

 

Antigamente via homens como tu...

Março 05, 2020

... em imagens de fotonovela, de revistas esculpidas para gente sôfrega de afetos e perdição. Uma imagem angelical de pecado, de oferenda inacessível, de desmaio consciente. Hoje dormes a meu lado, tão pleno e acessível que me assusta um dia acordar. Ou talvez nem assuste... Talvez sejam apenas ecos de velhas gaiteiras que insistem em soltar um grito do fundo do poço onde as condenei. Aprendi a caminhar por entre gigantes com a certeza de que sou mais uma. Tu és a melhor versão de mim. Quis deixá-lo registado em palavras escritas. Um dia vou segredá-lo ao teu ouvido. Saberás então que foi o melhor elogio que, alguma vez, alguém te fez. 

 

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Em pleno século XXI ...

Fevereiro 12, 2020

... continuamos a confundir “a minha ideia” com o que deve ser a lei de um país; a minha ética ou moral, com aquilo que deve ser a ética e moral reinantes, e impomos aos outros aquilo que defendemos para nós. Como se os outros fossem iguais a nós, pensassem como nós ou sentissem como nós. Será assim tão difícil de perceber que a vida e a morte de cada um são as coisas mais preciosas que cada um tem? E mais intimas, também, já agora. Se compete a cada um decidir aquilo que o faz feliz (é por isso que uns são strippers, outros canalizadores, outros sacerdotes, outros ficaram-se por ser Cavaco Silva (!), para dar uns míseros exemplos), também compete a cada um decidir o que o faz triste ao ponto de achar que a vida já não interessa. E se para uns é poeticamente bonito e abençoado aguentar até ao último suspiro antes de caminhar para os anjos e arcanjos no céu prometido, para outros este cenário não se coloca, preferindo serem eles a decidir sobre o momento de acabar com o sofrimento. Tanto num caso como no outro a decisão é pessoal. E uma não é melhor do que a outra. São mortes diferentes que apenas culminam vidas e perspetivas diferentes. Mais do que isto é impor aos outros aquilo que nós queremos. E os outros não são iguais a nós. É prepotência pura.

Pressupostos religiosos não podem servir de argumento num estado laico. Não é a igreja que determina a vida e a morte das pessoas, não tem qualquer competência ou moral para isso, até porque ao longo de séculos se substituiu muitas vezes a Deus, nessa decisão de quem fica, e de quem parte. Basta pensar na Inquisição. Chega de hipocrisia. A eutanásia é uma decisão individual. A única coisa que deve ser discutida são as questões formais de como o Estado deve dar resposta a quem escolhe esta via, de como se controlar esta prática nos estabelecimentos autorizados para o efeito. Tudo o resto é mesquinhice pura de quem se acha superiormente superior. Mas não é. Será apenas mais intolerante, talvez até mais cruel, por impor um sofrimento a quem não o queria sentir.

 

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Às vezes o amor...

Janeiro 24, 2020

... sempre que te olhas ao espelho e gostas do que vês. Sempre que falas, quando antes calavas com receio de não parecer pertinente ou inteligente. Sempre que o chão que pisas vale mais por seres tu a percorrê-lo.

Às vezes o amor quando as pessoas que te acompanham são as certas, as que gostam de ti mesmo quando tu não tens razão, ou dinheiro, ou humor para mandar cantar um galo. Sempre que aquilo que outrora era amaldiçoado, encaixa agora que nem uma luva num plano de futuro.

Às vezes o amor quando os dias de chuva ganham cor, quando caminhas incólume de óculos de sol no meio de pessoas desgrenhadas fugindo ao temporal. Sempre que os pés quentes enfiados numas meias de lã grossa surgem como o último grande sonho concretizado.

Às vezes o amor sempre que a criança que há em ti te sorri, provando que nada há no teu ser que a possa envergonhar. 

Os sinais do Universo ...

Janeiro 16, 2020

... estão em todo o lado. Mas só se tornam sinais se lhe atribuirmos um significado, se ressoarem em nós, caso contrário não passam de elementos aleatórios que cruzam as nossas vidas, a nossa existência mais quotidiana, não ganhando qualquer relevo. A magia não acontece porque sim. A magia acontece quando aceitamos que é magia. 

Em 2002, estava eu numa relação com a qual não me sentia particularmente satisfeita, pensei em terminar. Por vezes temos aquilo que parece essencial - uma boa pessoa, atraente, honesta, simples, amiga - mas falta qualquer coisa, falta o mais importante, que será o mesmo que dizer que falta tudo.  (Sei isso agora - tão óbvio!) Como a tal pessoa estava frágil e parecia amar-me perdidamente, dei um tempo a mim mesma, dei um tempo a ela, uma espécie de meta psicológica que ultrapassada serviria para seguirmos caminhos diferentes. Era o melhor. Até lá eu teria mais elementos para comprovar a mim mesma que aquela pessoa não servia, e ele teria mais tempo para se recompor e seguir o seu caminho.

O filme "Sinais", de ‎M. Night Shyamalan, ia estrear em breve, pelo que me pareceu apropriado utilizá-lo como meta. Já tínhamos comentado o interesse em o ver e após o seu visionamento, acreditando que ali poderia encontrar qualquer coisa que me indicasse um novo caminho, seguiria sozinha.

"Sinais". Seria um sinal para mim?

Na altura achei o pensamento rebuscado, estaria a fazer ligação entre coisas que nada tinham a ver. Ainda assim agarrei-me a este marco. Eu tinha muitos sinais de que aquela relação não iria funcionar, mas... Há sempre "mas" a estragar grandes decisões!

O filme mostrou ao de leve a subtileza de nos deixarmos levar pela intuição, por aquilo que nos surge como menos racional, mas não passava de um filme sobre uma invasão de extraterrestres hostis e qualquer outra leitura seria continuar a misturar "o cu das calças com a feira de Borba", como dizia a minha avó! Nem eu, na altura, conseguiria enxergar mais do que aquilo.

Vimos o filme, gostámos do filme, falámos sobre o filme. Falámos depois sobre cinema, sobre atores, sobre a vida, sobre casas, sobre locais onde comprar casas, sobre filhos, sobre trabalho, sobre casamento, sobre lua de mel, sobre comida, sobre viagens, sobre televisão, sobre trabalho, sobre compras do supermercado, sobre ida à farmácia, ao sapateiro, almoço na casa dos pais, jantares na casa dos sogros, o puto doente, o trabalho, a lista de compras do supermercado, a escola do puto, o trabalho, a escola do puto, o trabalho, a ida ao supermercado, o puto doente, o trabalho, o supermercado, o trabalho, o supermercado, o trabalho, o supermercado, o trabalho... E quando dei por mim tinham passado anos... mais de 10, mais de 15. Com os anos a minha crença quase, quase, firme de que a vida era aquilo. Já não havia sinais. Apenas elementos aleatórios que cruzavam a minha existência sem que lhes desse qualquer significado ou importância.

Não sei ao certo quando me surgiu o primeiro momento de magia. Já tenho feito este exercício mental e não consigo identificar ou lembrar-me da situação, frase, palavra, pessoa ou sentimento que provocou o despertar. Penso que o Universo, percebendo do meu descrédito, me tirou completamente o tapete, obrigou-me a estatelar no chão ao comprido, para depois, amorosa e dedicadamente, me ajudar a levantar, a reconstruir, desta vez a sério! "Vamos lá aprender a fazer as coisas, miúda!". E eu aceitei de imediato o desafio.

Um dia uma amiga, que acompanhou a minha caminhada no meu momento mais sombrio, disse-me uma coisa que de vez em quando me vem à memória: "Tu és muito corajosa". Durante meses este elogio pareceu não se encaixar em mim (O que queria ela dizer com aquilo?). Não vislumbrava grandes momentos de perigo ou necessidade em que tivesse feito uso desta faculdade. Mas hoje penso perceber o que ela quis dizer. As pessoas não estão habituadas a se reinventarem. As pessoas acreditam piamente que são aquilo que os olhos dos outros refletem. Ponto final parágrafo. Agarram-se a isto para sempre, até à morte. E até à morte é isto que elas vão ser e ter, a vida encarregar-se-á de lhes comprovar que estão certas. A não ser que algum sinal lhes surja. A não ser que aceitem olhar para a magia como ele verdadeiramente é: mágica!

 

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O mundo é um local ...

Janeiro 06, 2020

... mal frequentado. Se fosse um Bar e me pedissem a opinião, recomendaria que ninguém aqui entrasse, que fossem beber um copo a outro sítio, sob pena de se depararem com uísque contrafeito, banda sonora fora do tom, ou sanitários partidos e imundos.

Pensei nesta metáfora (tonta) no outro dia, enquanto preparavas um chocolate quente que nos aquecesse os pés. Estavas tão convicto e deliciado com a manobra que me fizeste acreditar que todas as pessoas do mundo já tiveram momentos assim! Tive inveja de nós. 

Mas talvez seja isso que nos una - a crença quase infantil de que tudo está bem, tudo vai ficar bem, que podemos contribuir para este conto com um final feliz. A Austrália arde, os coalas morrem (há animal mais fofo e apetecível no mundo?), homens doentes ameaçam avançar para guerras mundiais, pessoas matam-se porque a quantidade de melanina produzida pelos organismos não é igual para todos (!), e nós no sofá a achar que podemos fazer qualquer coisa de diferente no meio desta loucura. Que o nosso contributo fará a diferença. Nem que seja no sorriso que oferecemos a quem conhecemos; na permissão de passagem no trânsito a quem não tem prioridade, mas ainda assim vocifera; na forma como amamos o puto, como sonhamos com a chegada de outros putos que nos possam ajudar nesta missão...

Outro dia passeámos pelo campo, sentimos o sol na cara e olhámos para as árvores. Programa curto, sem grandes doses de expetativa, sem consulta do Google Map, sem a pretensão mostrar felicidade fabricada em selfies rápidas. Tu, eu, o menino, uma árvore, e uma papoila. Vermelha. Ali ficámos a olhar uns para os outros. Não sei o que dissemos, talvez nem tenhamos dito nada. Talvez tenha sido a papoila a fazer a conversa toda. Sei que quando cheguei a casa a alma estava colorida, como se tivesse acabado de fazer uma volta ao mundo. Como se o Bar tivesse sofrido remodelações. Como se todos os coalas do mundo abraçassem agora o seu eucalipto favorito.

 

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